Augusto Carminati
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Quando os EUA acabaram

Publicado em 29 de julho de 2025

Quando os EUA acabaram
O medo de ser substituído por máquinas nunca foi apenas medo de máquinas. Foi, desde sempre, o medo de ser substituível. É que por máquina já é sacanagem, né? Da a impressão de que a gente, enquanto humanos, é menos que elas. Tudo bem que nem sempre foi assim. Durante séculos, a humanidade dançou com suas próprias invenções na busca exatamente de ser substituído: da enxada à prensa, do tear ao telégrafo, tudo, até que, agora, a coreografia ficou mais apertada: é o cérebro que está na berlinda. E, diferentemente dos músculos, ele tem orgulho. Nas rodas de conversa, nos podcasts, nos vídeos com trilha inspiradora no TikTok, a pergunta ecoa disfarçada de mil formas: “será que a IA vai tomar o meu lugar?” A resposta é longa, profunda. O que é substituir, o que me torna único, o que me torna humano... A filosofia tem uma lista milenar de elucubrações sobre esse tema em geral, mesmo muito tempo antes da IA surgir. Mas aqui pra gente, no mundo prático de 2025, para quem está com algum tipo de medo ou ansiedade (basicamente 110% da população) e para dar corpo a essa angústia difusa, venho desenvolvendo uma ferramenta que chamo de Matriz do Medo da IA (ou "matriz do medo", pra ficar mais apelativo), que é uma tentativa de transformar ansiedade em linguagem, e linguagem em consciência. Não é um índice de obsolescência profissional, é uma lente para enxergar, com mais clareza, onde reside o risco real da automação e onde ainda habita o humano como insumo irrepetível. Em poucas palavras? É pra entender quais papeis e atuações profissionais estão mais ou menos seguros de acordo com a projeção atual. A matriz é composta por dois eixos. No eixo horizontal, o grau de clareza dos problemas enfrentados no cotidiano profissional: de um lado, os problemas bem definidos — previsíveis, estruturados, lógicos, mensuráveis, como um cálculo, uma logística, uma fórmula; do outro, os problemas mal definidos — ambíguos, subjetivos, caóticos, como uma crise de reputação, uma mediação familiar, a invenção de uma linguagem nova. No eixo vertical, o tipo de insumo cognitivo predominante: na base, os trabalhos frios — mais objetivos, exatos, racionais; no topo, os trabalhos quentes — afetivos, interpretativos, empáticos, criativos. O cruzamento desses dois eixos gera quatro quadrantes: Frio + Bem definido: o epicentro da automação. Aqui vivem tarefas como preencher planilhas, processar documentos, diagnosticar com base em dados estáticos. Tudo que é altamente repetível e logicamente estruturado. Estes, a IA já faz, e faz cada vez melhor, mais rápido e mais barato. Frio + Mal definido: um território técnico de fronteira. Demandas complexas, mas ainda centradas em lógica, como cibersegurança ou modelagens financeiras para contextos voláteis. A IA pode ajudar, mas a interpretação de incertezas ainda exige humano. Quente + Bem definido: áreas de relação e repetição com toque humano, como atendimento, suporte emocional padronizado, serviços personalizados de baixa complexidade. A IA avança, mas a subjetividade ainda resiste. Quente + Mal definido: o refúgio provisório da humanidade. Aqui estão os artistas, os educadores, os estrategistas, os terapeutas, os escritores, as lideranças. Profissões onde o problema não é só difícil, é desconhecido; e onde o que se pede não é solução, é visão, onde, na maior parte do tempo, o que queremos não é "uma decisão", mas sim "uma decisão daquela pessoa em si". Conteúdo do artigo A matriz não pretende hierarquizar importância, mas evidenciar risco de automação, pois parte de uma premissa: Tudo que é automatizavel, automatizado será. Agora, um ponto importantíssimo é que mais do que tudo isso, ela não fala de profissões, fala de posturas dentro das profissões, e da possibilidade de encontrar espaços e desvios para uma postaura "fria e bem-definida" tornar-se "quente e mal-definida". É uma provocação e ao mesmo tempo um facilitador de desvio de rotas arriscadas, porque mesmo um artista pode operar de forma fria e repetitiva. E mesmo um contador pode ser um resolvedor de problemas ambíguos com criatividade subjetiva. Entendem? O que está sendo automatizado não é o humano, é o automático. Quem opera de forma automática, mesmo em funções ditas criativas, está em risco. Quem pratica interpretação, transgressão, escuta, improviso, ainda é necessário e vai ser. Mas por quanto tempo? (Não me arrisco a responder). A Matriz do Medo não é um lugar de conforto. É uma convocatória. Ela pergunta em que eixo você vive e o que em você, em sua abordagem profissional é algoritmo disfarçado de humanidade. Mais do que isso? Ela pergunta (certa de quem nem tudo é possível e cada realidade é uma realidade), o quanto você pode mudar. Porque, no fim, o medo é apenas um nome rápido para a falta de linguagem. Quando conseguimos nomear o que fazemos e como fazemos, o medo perde o poder paralisante e se torna o que deveria sempre ter sido: um convite à transformação.

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