Augusto Carminati
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Nossas crianças não têm futuros

Publicado em 27 de maio de 2025

Nossas crianças não têm futuros
Durante muito tempo, achamos que pensar futuros era apenas uma questão de método. Bastava uma boa leitura de tendências, alguns dados de mercado, algum modelo preditivo e uma dose de otimismo comedidamente cínico. Mas os últimos anos colocaram em colapso essa ideia — ainda que boa parte do mercado siga tentando reanimá-la com PowerPoints. O futuro, já está claro, não se comporta como um destino. Não é linha. Não é lugar. Não é ponto no horizonte - nem no H1, em no H2 e nem no H3. Os futuros são uma condição. Uma substância. Um tecido vivo, mutante, espesso — onde tecnologia, linguagem, política, corpo e cultura disputam, a cada segundo, os contornos possíveis do que virá. É nesse território que nasce Antropousia — uma newsletter, sim. Mas, sobretudo, uma lente. Um ponto de ancoragem para quem ainda acredita que há perguntas que valem mais do que as respostas imediatas. Um espaço para pensar futuros não apenas como projeções de mercado, mas como expressões da condição humana. Por que o nome? Em grego antigo, ousia é “substância”. É aquilo que permanece mesmo quando todas as formas se esgotam. Antropos é o humano — não como indivíduo, mas como potência coletiva de linguagem, imaginação e transformação. Juntas, essas raízes formam um conceito que venho desenvolvendo há anos: a Antropousia — o algoritmo orgânico que sustenta o que somos, e como nos manifestamos, mesmo (ou principalmente) quando tudo ao redor colapsa. Vivemos o tempo em que essa substância está sendo reprogramada. Por IA generativa, por neurotecnologias, pela erosão das instituições, pelas plataformas que moldam gostos, narrativas e afetos. Por isso, mais do que nunca, pensar futuros exige mais do que ferramentas. Exige consciência e a apropriação que somente a liberdade de especular nos dá. E essa liberdade exige cultivo, exige cultura. Mas qual cultura sobrevive ao tempo do real-time? Se você lidera uma organização, um projeto, uma comunidade — ou apenas tenta manter algum grau de sanidade em tempos de instabilidade permanente — sabe que os frameworks tradicionais já não bastam. Transformação digital virou ruído. ESG virou compliance. Tendência virou commodity. E é justamente nesse ponto que a inteligência antecipatória se separa da inteligência apenas reativa. É aqui que a cultura deixa de ser storytelling e volta a ser território. Antropousia é um exercício constante de tradução entre três dimensões tecnológicas que moldam tudo o que fazemos: a tecnologia material (aquilo que pegamos), a tecnologia cultural (aquilo que compartilhamos) e a tecnologia digital (aquilo que nos atravessa). E tudo o que estamos vivendo — da IA à crise ambiental, da economia da atenção à reorganização geopolítica global — nasce de desequilíbrios entre essas três camadas. Não há mais futuro sem alfabetização de futuros. Mas o que me move aqui não é oferecer uma “ferramenta de antecipação estratégica”. Isso, honestamente, você encontra em muitos lugares. O que me move é criar um espaço onde seja possível desacelerar o pensamento sem perder a urgência. Um espaço onde dados convivam com ficção, onde insight não precise ser pitch, onde o incômodo tenha lugar legítimo. Um espaço do livre especular. Porque não é possível se comprometer com o que não se vê. E não é possível transformar o que não se sente. Tudo que nasce foi um dia imaginado, inclusive os futuros. Antropousia é para quem quer ver. Para quem quer sentir. Para quem quer, talvez, reconstruir — ainda que do zero — os fundamentos sobre os quais estamos assentando os futuros. É para quem está cansado de empilhar tendências como quem empilha caixas vazias. É para quem quer fazer silêncio entre uma notificação e outra, e parar para ler de fato. É para quem entende que especular é, antes de tudo, um gesto de responsabilidade, lucidez, liberdade e apropriação: de si e de seus futuros. Se esse espaço faz sentido para você, te convido a caminhar comigo. A cada edição, trarei reflexões, provocações, mapas e metáforas sobre esse tempo espesso e veloz que estamos vivendo — e sobre tudo o que pode emergir dele. Que Antropousia não seja apenas uma palavra nova. Mas um espaço novo para pensar. E, talvez, para ser.

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