Novos horizontes: o que acontece quando o H3 se torna o H1
Publicado em 05 de junho de 2025

Faz um ano que desci de um palco onde palestrava e, conforme o costume, algumas pessoas vieram parabenizar, tirar dúvidas, acrescentar informações, enfim, o trivial em grandes eventos.
Só que dessa vez, um evento da NASA, onde falei sobre alfabetização de futuros, não um, mas três pais de alunos de uma instituição de ensino da classe A me interpelaram com algo que ecoa desde então: “Por que é que meu filho não está sabendo isso? Por que isso não é uma matéria na escola dele? É um absurdo que isso ainda não seja a realidade do meu filho!”. Sim, é um absurdo que isso ainda não seja a realidade de todos, uma realidade da nossa sociedade.
Hoje escrevo com isso em mente.
A alfabetização de futuros e em habilidades antecipatórias é, paradoxalmente, a competência mais humana que existe — e, ao mesmo tempo, uma das menos distribuídas. Em um mundo onde as três principais tecnologias (a digital, a material e a cultural) vivem saltos disruptivos simultâneos, é urgente compreendermos que imaginar futuros não é mais um luxo da filosofia nem uma abstração criativa: é sobrevivência.
Eu não quero parecer alarmista com isso, não sou um profeta dos apocalipse, mas me escutem: é questão de sobrevivência.
Estamos ensinando nossas crianças a planejarem suas vidas com base em referências que já são obsoletas. Uma linearidade industrial para um futuro pós-digital. Em um modelo que já estaria atrasado para HOJE, não temos nem como começar a defendê-lo para o amanhã. Elas, nossas crianças, aprenderão a se comportar bem em entrevistas que talvez nem existam, a trabalhar para funções que já estão sendo automatizadas, a sonhar com estruturas familiares, jurídicas, econômicas e tecnológicas que já começaram a se desmanchar e não devem durar mais cinco anos. Repito: cinco anos. Sou otimista.
Não é apenas uma falha curricular. É um descompasso civilizatório!
Segundo a escala de Bloom, uma das mais aceitas estruturas sobre os níveis de eficácia do aprendizado, a base é recordar. Em seguida, compreender, aplicar, analisar, avaliar — e, no topo, criar. Criar é o que de fato enraíza o conhecimento, pois criar é apropriar-se. E ensinar, que exige criação compartilhada, é um dos maiores instrumentos de apropriação cognitiva. Mas como criar futuros sem imaginar futuros? Como ensinar a transformação sem antes visualizar o que pode ser transformado?
O design especulativo entra aqui como método e metáfora. Ele permite que visualizemos aquilo que ainda não existe. Ao visualizar, nos apropriamos. E só nos comprometemos com aquilo de que nos apropriamos. É nesse sentido que digo: o futuro não se ensina mostrando dados projetivos. Ele ensina permitindo apropriação. Como já dizia Aristóteles, “uma alma não pensa sem uma imagem”, não nos apropriamos daquilo que não vemos, e o futuro é nada mais que uma forma de comprometimento.
A especulação é uma habilidade metodológica e pode ser muito ferramental sim, mas precisa de inserção, precisa de manifesto, de cultura.
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Desde 2012, a UNESCO reconhece formalmente a “alfabetização em futuros” como uma competência essencial para o século XXI. Não se trata apenas de preparar indivíduos para o mercado — mas de preparar cidadãos para um tempo em que o presente já não basta. Segundo Riel Miller , que liderou o programa de Futures Literacy da própria UNESCO, “o futuro não é algo a ser previsto. É algo a ser usado”. Essa é a chave. A capacidade de antecipar, de projetar e especular cenários, de lidar com a incerteza como matéria-prima e não como obstáculo, precisa ser compreendida como disciplina cívica. Como letramento mesmo. Como alfabetização.
A antecipação é o oposto da nostalgia disfarçada de estratégia. Porque muito do que entendemos hoje como antecipação é somente a projeção, ou seja, é esticar o presente para o futuro, pegar dados e expandi-los em linha reta para ver no que dariam sem nenhum tipo de interferência. Antecipação, na verdade, é a recusa de planejar um amanhã com mapas do ontem. Toda repetição, no mundo social, é uma ilusão. Mesmo o que parece idêntico ocorre em outro tempo, em outra cultura, sob outras mediações. O erro está em tratar o futuro como uma versão estendida do presente. Isso não é previsão, é inércia!
Nada se repete, tudo se refere. Apenas.
Veja, futuros são uma habilidade exclusivamente humana. Nenhuma outra espécie planeja com base em narrativas especulativas. Mas mesmo entre os humanos, essa habilidade ainda é um privilégio. Ela é ensinada em sociedades ricas, nas melhores escolas, nas universidades de ponta, nos laboratórios de inovação, nas consultorias estratégicas. Mas não em países emergentes, nas escolas públicas. Não nos currículos da educação básica. Não nas periferias, onde o pior do futuro chega primeiro — e mais violento.
Essa disparidade é perigosa. Sociedades que não se apropriam de seus futuros tendem a ser apropriadas por eles. Quando o futuro chega sem mediação, ele vira trauma. A palavra-chave aqui é apropriação. Só há engajamento real com aquilo que passa a fazer parte de nós. Se uma criança não é exposta à ideia de futuros possíveis, ela viverá como se só houvesse um. Um só destino linear. Um só modelo de sucesso. Uma só forma de existir. E se tem uma coisa que o presente vem nos mostrando o contrário, essa coisa é a velocidade da mudança.
Não é sobre prever o futuro. É sobre pluralizar sua consciência. É sobre oferecer imagens, protótipos, referências. É sobre transformar a incerteza em linguagem. E a linguagem em possibilidade. É sobre entender que adaptar-se já é estar atrasado — porque o modelo-mundo industrial com o qual estamos acostumados, já mudou. E muito.
E não para de mudar, cada vez mais rápido.
Precisamos tratar o futuro não como um lugar distante, mas como uma tecnologia sociocultural de comprometimento. Uma habilidade ainda de poucos, mas necessária para muitos que não querem se permitir viver apenas o emergencial. Quando falamos de design de futuros, estamos falando de moldar percepções individuais e coletivas. De mobilizar afetos. De criar senso de direção. Se queremos escolas que formem sujeitos do presente, basta manter tudo como está, mas não podemos esquecer que o sujeito do presente não caberá no futuro. Por outro lado, se queremos formar sujeitos do tempo — capazes de atravessar as transições que virão — precisamos começar agora.
Precisamos parar de ensinar que o futuro será uma recompensa para os obedientes, e começar a ensinar que ele é uma responsabilidade manifesta.
O futuro não pode continuar sendo um susto. Ele precisa ser assumido como pacto. E pactos se ensinam. Porque o amanhã não começa amanhã. Ele começa onde a nossa imaginação for capaz de alcançar - e se comprometer.



