Os futuros da verdade
Publicado em 07 de junho de 2025

Faz pelo menos três décadas que o modelo dos Três Horizontes (H1, H2 e H3) da McKinsey serve como metáfora útil para o crescimento organizacional. O horizonte 1 seria o presente — a manutenção da operação corrente; o horizonte 2, a transição — inovações próximas, melhorias em processo; e o horizonte 3, o futuro — as grandes apostas de longo prazo. Em teoria, sua força sempre foi equilibrar continuidade e ruptura. Sua fraqueza, como toda boa teoria gerencial, era assumir que o tempo nos dá tempo. Ele até já deu, mas não dá mais.
Mas o tempo acelerou. Ele não só "não para", como dizia o poeta, como agora pula, salta, voa, viaja por wormholes. E não de maneira uniforme.
A aceleração em curso não é linear, não é integral, e muito menos é estável. Vivemos hoje a fusão e fissão dos três drives da tecnologia: o digital, o material e o cultural. São três motores de aceleração, cada um em velocidades distintas, mas todos mutuamente reativos, retroalimentando-se.
Quando uma nova linguagem de IA é lançada, ela impacta a forma como consumimos, trabalhamos, nos relacionamos e nos percebemos. Quando um novo material é desenvolvido, ele redefine processos, estéticas, normativas e sensibilidades. Quando uma mudança cultural se instala, ela modifica a base sobre a qual decidimos o que merece investimento, desejo, existência.
O resultado dessa combinação de acelerações divergentes é uma curvatura do tempo organizacional. O que antes era possível planejar em etapas - manter, transicionar, inovar - hoje se embaralha em uma simultaneidade radical. Horizontes que deveriam se suceder agora colapsam uns sobre os outros. H1 se deforma antes mesmo de ser consolidado. Projetos de curto prazo já nascem defasados diante da próxima API, da próxima instabilidade geopolítica, da próxima virada cultural. A metáfora dos horizontes precisa de revisão: não vivemos mais (e já faz tempo) em uma linha do tempo, mas em um campo gravitacional de forças instáveis e sobrepostas. A realidade industrial é folclore, a digital é passado. Falta quanto pra admitirmos que tudo é outro?
Basta ver o noticiário. Há dois anos, quase ninguém falava sobre inteligência artificial, muito menos a generativa, fora dos círculos mais especializados. Hoje, ela está em cada mesa de reunião, em cada plano estratégico, em cada dúvida sobre o amanhã. Meu parâmetro é simples: se vira notícia no Fantástico, é porque já caminhou por toda a curva de adoção, de "early adopters a laggards". As notícias, de invenções tecnológicas ao mundo geopolítico, são tão rápidas que uma manchete da semana passada já nos parece de outra encarnação. O ciclo da obsolescência já não é um ciclo. É uma implosão, estamos em supernova.
É aqui que proponho uma imagem alternativa: o "Colapso dos Horizontes". Uma fusão não planejada, não linear e não hierárquica entre o que era presente, transição e futuro. Um momento em que o amanhã já é sempre o hoje, e onde o planejamento tradicional, baseado em sequências estáveis, torna-se não apenas ineficaz, mas contraproducente.
A implicação mais perigosa dessa fusão dos horizontes é que ela desestabiliza não apenas os negócios, mas a própria capacidade de imaginá-los. Quando o horizonte do futuro se dissolve no presente, perdemos o tempo necessário para especular, projetar, experimentar, errar e refinar. Planejamentos de H3 - que antes levavam anos em laboratórios, protótipos e testes - agora precisam ser lançados em meses, enquanto ainda estão em disputa cultural, sem lastro jurídico, sem linguagem suficiente para serem sequer compreendidos por todos os envolvidos. Não há tempo de maturação para mais nada, pois nada mais dura o tempo de maturação.
Em Antropousia (https://a.co/d/bPZz0Aa), descrevi esse fenômeno como uma espécie de "singularidade especulativa": o momento em que a possibilidade de imaginar o futuro se reduz à capacidade de responder ao presente. A ideia era metafórica. Hoje, ela é operacional. Há um risco concreto de que a especulação se torne um luxo, a estratégia uma reatividade e o planejamento uma caricatura de si mesmo.
É por isso que falo em urgência da gestão da antecipação. Não mais como tendência, mas como necessidade operacional. Organizações que não desenvolverem estruturas, departamentos e competências dedicadas à antecipação - e ao uso criativo, ético e consistente da incerteza como matéria-prima - não conseguirão operar com lucidez no novo regime temporal. É mandatória uma governança antecipatória. O futuro não é mais sobre o longo prazo. É sobre o outro ritmo. É sobre os (não)intervalos entre rupturas.
A antecipação, nesse cenário, deixa de ser uma prática sofisticada de poucos e passa a ser um imperativo sistêmico. Departamentos de Foresight, de Inteligência Cultural, de Design de Futuros não são adereços de inovação: são pulmões respiratórios em um mundo de baixa previsibilidade e altíssima disrupção. Não há mais estratégia sem especulação. Não há mais operação sem elasticidade. Não há mais cultura sem reinvenção contínua e programática.
A McKinsey não está errada. Mas está desatualizada. E o risco de aplicar modelos úteis em contextos que já não os comportam é o mesmo de tentar guiar-se por constelações apagadas em um céu em mutação: você pode estar encantado com essa luz só agora, mas essa estrela já morreu faz tempo. A luz só demorou pra chegar até você. Quando as coordenadas do presente se tornam móveis, o único jeito de não se perder é aprender a navegar com múltiplas bússolas: ética, estética, epistemológica e estratégica. Ou teremos o amanhã nos atropelando no meio da noite, sem sequer termos tido tempo de nomeá-lo.
Porque no fim, não é que o futuro chegou antes da hora. É que nós, presos à lógica dos horizontes, esquecemos de perguntar que horas são.



