Caricatura de futuros: a tendência virou commodity
Publicado em 13 de junho de 2025

E a verdade, hein? Onde é que ela foi parar? Será que um dia existiu?
"Shit is getting real." A frase parece simples, mas carrega o tom exato de uma virada civilizacional: quando a realidade, saturada de simulações, deixa de ser exclusiva. O mundo não está apenas repleto de conteúdo gerado por inteligências artificiais. Ele está se tornando indistinto, pois tudo o que entendemos como verdade nunca é fático, é retórico, e talvez já não tenhamos, enquanto espécie, mais controle nenhum da retórica.
O real já não se sustenta por si só. A confiabilidade não é mais garantida pelo que aconteceu, mas pelo que pode ser rastreado, autenticado, performado, e isso leva mais tempo do que os movimentos imediatos que a retórica direcionada é capaz de realizar. Ou seja, antes que um suposto fato seja xecado, ele de fato já se tornou fato, mesmo sem ser fato: o que importa é a reação.
Em um tempo onde estamos começando a nos afeiçoar de maneira estranhamente real com uma apresentadora de programa de TV que não existe, o jornalismo, a informação dos fatos reais, e não somente a de memes e piadas, não tem mais o risco de ser absorvido pela artificialidade, ele tem o prazo.
Humanos buscam viés de confirmação e não de dúvida, portanto, sempre que uma informação confirmar qualquer de nossos instintos, do mais lógico ao mais selvagem, não haverá tempo, antes da nossa reação, para uma longa aferição da verdade. Se é que ela existe.
Isso sempre aconteceu em outras escalas, mas a própria escala atual, por tamanha diferença das demais, alterou a própria natureza da questão.
Sendo assim, nesse mundo ond Shit is getting real, mas todo o resto não, entendo que estamos nos deparando com três possíveis cenários de desdobramentos:
Criadores de conteúdo humanos poderão se destacar, justamente por serem humanos. Auditos humanos buscam presença, gesto, subjetividade. Mas surge a pergunta: como saber se sou humano de verdade? A simulação está aprendendo a performar humanidade também, e muito rápido. Talvez esse seja um cenário mais emergente.
O oposto: criadores humanos não terão qualquer chance. Mergulhados em um oceano de conteúdo hiperotimizado para dopamina, criado por máquinas, serão apagados da relevância. Todo o conteúdo será artificial, com um distanciamento ainda maior entre o criador por trás de tudo e a audiência. Talvez esse seja um cenário pós-emergente.
A internet se torna uma fonte inutilizável de informação. Simulações são indistinguíveis de eventos reais. A verdade, inalcançável. Por ser tão difícil saber o que é real, tudo torna-se irrelevante. Ou seja, por ironia do destino, a mentira também perde força. Se tudo é contestável, campanhas de desinformação também perdem efeito. Ninguém acredita mais em nada. Esse é um cenário futuro-futuro.
Neste caso, emergente, pós emergente e futuro-futuro, acontecem em um raio de no máximo 10 anos.
O caso da "Marisa Maiô" é um símbolo precoce desse fenômeno: uma influenciadora criada por IA, com patrocínios reais e seguidores humanos. Ainda conseguimos identificar o artifício, mas por pouco tempo. Logo, será indistinto. A inteligência artificial não está apenas ocupando espaço; ela está desenhando os contornos do que chamaremos de "realidade".
Como disse Huxley, a verdade não precisará mais ser negada. Ela estará lá, mas dissolvida em tantas distrações e prazeres, que ninguém mais se dará ao trabalho de encontrá-la. Orwell previa repressão e vigilância; Huxley antecipou dopamina e anestesia. A segunda visão está vencendo.
Se todo mundo é Pinóquio, nenhum nariz cresce. A mentira perde o contraste. Saímos da pós-verdade para a não-verdade: uma era onde a mentira é norma e o real é um dado estatístico.
O desafio agora não é reconstruir a verdade, mas reinventar a confiança, e isso é uma reestruturação de algo extremamente primitivo na gente.
Num mundo onde a realidade é renderizada, e o real é uma consequência tardia da simulação, só restará valor àquilo que conseguir criar vínculo antes de ser validado. Não é mais sobre provar que algo é real - é sobre fazer com que importe, mesmo que não seja. E isso exige uma nova ética do sensível: uma pedagogia da atenção. Porque, se a verdade se dilui no ruído, talvez o que nos resta seja aprender a escutar o silêncio.
E aí, só aí, talvez reencontremos o humano. Não como identidade, mas como intervalo.



