Augusto Carminati
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O futuro perdeu seu lugar

Publicado em 26 de agosto de 2025

O futuro perdeu seu lugar
A pergunta "ai, mas será que estamos na bolha da IA?" é pobre demais para o que está acontecendo. Bolhas são efeitos financeiros de crenças coletivas nem sempre ancoradas na realidade; o que temos aqui é um descompasso. Um desacoplamento entre três processos tecnológicos que caminham em velocidades diferentes: o digital, o material e o cultural, exatamente como proponho em Antropousia. Funciona assim: a IA é uma tecnologia digital em primeiro plano, mas o que define seu retorno não é só o modelo: é a qualidade material dos dados (sensores, captação no mundo físico) e a cultura que os integra ao trabalho vivo, as habilidades integradas a ela. Quando esses três tempos não se sincronizam, o mercado enxerga “bolha”; o que há, na verdade, é uma assimetria de maturidade. Só que agora todo mundo resolveu falar de bolha porque a tecnologia digital olhou pra três e notou que as duas outras estão comendo muita poeira. Então ela resolveu fazer uma pausa está sentadinha na cadeira. Tomemos o GPT-5 como caso sintomático. A OpenAI lançou um modelo mais rápido, mais confiável e com um roteador que decide quando responder “no ato” e quando investir em raciocínio mais longo, uma interface única por cima de vários especialistas internos. Parece um imenso salto, mas nos números comparativos, o retrato é parecido: sólido, porém marginal: No SWE-bench Verified, o GPT-5 marca 74,9%, frente aos 74,5% do Claude Opus 4.1; diferença real, mas longe do tipo de ruptura que dominou 2020-2023. Mesmo entusiastas admitem que, no agregado, os topos do pódio se revezam por benchmark e por tarefa. Isso é platô de escala: mais engenharia e menos "disrupção". Há, sim, ganhos práticos que importam para o usuário final: contexto expandido e respostas mais estáveis. No ambiente do ChatGPT, múltiplas coberturas de imprensa e testes apontam janelas de 256k tokens na interface e até ~400k via API; o bastante para conversas e bases longas sem perder o fio. Mas, de novo, é evolução de grau, não ruptura de gênero, é inovação incremental, não disruptiva como todos os saltos anteriores foram, ou ao menos demonstraram ser. Pouca gente vem falando "uau". Quando a poeira do anúncio baixa, a macro-paisagem aparece: não é que “a IA parou”; é que o digital chegou perto de seu limite marginal enquanto o material e o cultural ficaram para trás. No material, faltam dados vivos e confiáveis vindos do mundo (telemetria, IoT, automação sensível ao contexto). No cultural, faltam rituais, papéis e processos que façam a IA deixar de ser um atalho e virar infraestrutura de decisão. É por isso que, ao mesmo tempo em que os laboratórios iteram, as empresas patinam: um estudo do MIT/Media Lab (Project NANDA) analisou centenas de iniciativas e encontrou impacto zero em P&L em cerca de 95% dos pilotos corporativos. Não por “falha da IA”, mas por falha de integração: gasto difuso, problemas mal formulados, workflows que não se reescrevem. O diagnóstico é duro, porém útil para entender que a tal da bolha não é bolha mas, como eu disse e repito, um descompasso. Política e geopolítica já se mexeram. De um lado, os EUA publicaram um America’s AI Action Plan com foco em infraestrutura, capacitação e liderança internacional; de outro, a China levou à WAIC um Global AI Governance Action Plan, propondo coordenação multilateral. A governança sai do rodapé acadêmico e vira peça do tabuleiro, o que corrobora o que venho dizendo: o risco maior, por ora, é de má alocação mais do que de “tomada de poder” por uma IAG inexistente. É aqui que a conversa sobre “bolha” empobrece. Sim, há ativos esticados e projetos que não param em pé; sim, investidores e conselhos oscilam entre "FOMO" e prudência. Mas bolha é só a fotografia financeira de uma assimetria estrutural. O que os dados gritam é outra coisa: não há ROI digital onde o material e o cultural não chegam. Em linguagem de chão de fábrica: se o sensor mede mal, o relatório alucina; se a equipe opera como ontem, o copiloto vira brinquedo; se o dado não nasce clean-by-design na borda (máquinas, lojas, campo), o modelo vira só um poeta prolixo e muito chato. Não adianta termos a melhor tecnologia digital de 2025 se temos a mentalidade de 1963. É por isso que, paradoxalmente, vejo ganhos mais palpáveis primeiro em pequenos e autônomos: quem “dá o sangue” para aprender, afiar prompt, redesenhar tarefa, coletar o dado certo, quem sabe que precisa contar consigo mesmo pra tudo, e fecha o ciclo de valor em semanas, não em comitês trimestrais. Autônomos, pequenos e médios estão usando IA como nunca e garanto a vocês, por experiência própria, além de pesquisa, que o ROI é altíssimo para a gente: nós equiparamos tecnologia digital e material no mesmo patamar, aqui em nosso mundinho. Do lado corporativo, além de muita gente ficar com medo de ser substituído e acabar ou advogando contra a IA ou fingindo que não usa, as lideranças estratégicas não fizeram nenhuma questão em investir em cultura e fluência. Trouxeram a IA com um grande "se vira aí pra usar, bebê" na expectativa nítida somente de algo que podemos chamar de lucro fácil. Resultado? Para as pessoas em toda a cadeia da organização, a IA soou mais como ameaça o/ou contrabando do que como solução ou alívio. O estudo do MIT crava o mapa: os 5% que capturam valor focam problemas estreitos e mensuráveis (back-office, operação, atendimento), ajustam processo antes de plataforma e abraçam parcerias por competência, não por manchete. O resto queima orçamento tentando “pular” do slide para o milagre! Volto, então, ao tripé de Antropousia: digital, material, cultural, e o traduzo em prática direta. Digital: aceitar que há algum tipo de platô chegando sim, mas como guia, não como luto. Claro, os modelos vão melhorar, mas em incrementos; não há sinal maior de estagnação na inovação do que a evolução de grau sem a ruptura de gênero. E a estagnação com cara de bolha vai continuar enquanto o digital estiver lá na frente da corrida, esperando as outras duas tecnologias avançarem um pouquinho mais. Material: medir melhor, mais perto, mais barato. Sem telemetria decente, qualquer “IA de gestão” é a versão elegante do palpite. Cultural: redesenhar o trabalho e dar nome aos rituais. Não estamos treinando as pessoas adequadamente e o pior, não estamos ACULTURANDO as pessoas adequadamente. Até sobra técnica (não muita), mas falta fluência e intenção. No horizonte curto, veremos mais ações de Estado tentando organizar o jogo, mais relatórios exibindo o custo elétrico da ambição e mais benchmarks empatados no topo. Nada disso é “estouro da bolha”; é o custo natural de amadurecer. No horizonte útil (o das organizações que nos leem), o movimento é claro: reduzir o problema até que caiba em um sprint, aproximar o dado da borda, assinar um pacto de trabalho com os agentes e aculturar, aculturar e aculturar. Só então o digital encontrará apoio no material e abrigo na cultura. Até lá, seguimos afinando instrumentos sem nem maestro nem instrumentista disposto a tocar.

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