O futuro é imoral
Publicado em 16 de fevereiro de 2026

“Comunicação é contar histórias ao redor da fogueira” — frase campeã em palestras, e que todo mundo que de alguma forma é da área de comunicação já ouviu, ressaltando a imagem ancestral da fogueira como berço do storytelling.
Como esses dias bem me lembrou Cris Dias (sem dúvida alguma uma das pessoas que mais admiro na internetosfera inteira), acrescentando que as vezes devemos contar histórias ao redor da fogueira mas, o mais importante, é que às vezes devemos SER a fogueira.
A ideia me fisgou.
Em futuros, ao entregar cenários, não basta encantar: é preciso que sejam absorvidos e usados, principalmente, senão, nada.
Em organizações, públicas ou privadas, todos precisam estar por dentro ou não estamos nada (tive essa conversa super rica, ainda ontem, com a Sabrina Macário) e venho preparando um material bem mais profundo pra lançar através da Imma | Inteligência Antecipatória.
Mas aqui adianto e insisto: FUTUROS NÃO É SÓ SOBRE STORYTELLING, é sobre "STORYOWNING". Ou "ownering", sei la, nem precisamos de um novo termo.
Transformamos aquilo do que nos apropriamos. Essa deve ser a premissa de qualquer design.
Uma cultura acontece onde quem conta a história são os outros e a organização é a fogueira: muitas organizações acreditam que cultura e transformação cultivam-se com storytelling, quando na verdade elas depende de "storyowning".
A cultura é o que acontece depois que a história acaba, ao final do manual.
Após 13 anos em ecossistemas de cultura organizacional, inovação, criatividade e futuros vi que sentir-se proprietário de verdade (e não superficialmente) é requisito para transformar. Não é convencer; é convidar, integrar e entregar.
E tudo isso nasce da especulação: Aristóteles dizia que “a alma não pensa sem imagem”, e Disney (por falar em frases campeãs em palestra) dizia que "se você pode imaginar, você pode criar". (tá, nem tudo pode ser imaginado pode ser criado, mas tudo que é criado foi antes imaginado), e a imaginação leva à transformação pelo caminho da apropriação.
Como escrevi em Antropousia (https://abre.ai/no55), futuros são exclusividade humana, privilégio social e, sobretudo, habilidade especulativa.
Por isso, o design especulativo e o estudo de futuros são a fogueira ao redor da qual os outros designs se aquecem e contam suas histórias. Além disso, o trabalho entregue por alguém da área de futuros, como uma conversa que tive essa semana com a querida Gabriela Mizobe apontou, não deve tomar o papel de bardo, mas de fogo.
No fim, quem apresenta cultura, ecossistema e futuros de alguma forma, precisa entender sua missão maior: ser apropriado. Sem apropriação, ficamos no relato; com apropriação, chegamos à transformação.
Na taxonomia de Bloom: recordar é a base da pirâmide, o mínimo; que eleva-se para o entender, aplicar, analisar, avaliar e, por fim, CRIAR, o mais sofisticado: e não existe criação sem apropriação: não podemos atuar somente no recordar.
Deixe falar. Cultive trovadores. Seja fogueira.



