Augusto Carminati
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Safeboom: das guerras ao morango do amor

Publicado em 10 de julho de 2025

Safeboom: das guerras ao morango do amor
A política sempre foi o espelho da humanidade: ambígua, imperfeita, parcial e, ainda assim, insubstituível. A arte imita a vida, que imita a política. Desde a suméria até hoje. Talvez um pouco antes, sempre foi assim. O que conhecemos por civilização sempre andou junto com a política. Política é uma expressão humana, portanto. Mas e se a proposta fosse justamente substituí-la? Não por outro sistema ideológico, mas por outro agente, outra entidade, uma entidade não-humana? Um congresso brasileiro, sei lá, em 2038, vota pela substituição de parlamentares humanos por agentes de inteligência artificial calibrados ideologicamente. Um futuro especulativo? Sim. Mas não tão distante quanto gostaríamos - ou talvez não tão perto quanto desejamos? Este artigo parte do conto para analisar criticamente um conceito que já circula entre pesquisadores, filósofos e tecnólogos: a democracia algorítmica. Governar por IA (e não apenas com IA) tornou-se mais do que um experimento literário. É uma possibilidade real, impulsionada por dados, promessas de eficiência e o desejo contemporâneo de erradicar a falibilidade humana da vida pública. E mais tudo que ela levar junto com isso. A Ascensão da Governança Algorítmica Chamamos de governança algorítmica os sistemas em que decisões públicas, jurídicas ou administrativas são tomadas ou mediadas por algoritmos. Essa tendência já é observável em várias frentes: Nos EUA, mais de 1.200 aplicações de IA em agências federais foram registradas em 2023 (de acordo com Brookings Institution), desde reconhecimento facial até políticas públicas baseadas em dados... Até aí nada demais, você dizer. Ok. No Brasil, o programa "Victor" do STF já automatiza triagens de processos jurídicos. A Câmara dos Deputados usa IA para transcrição e análise de discursos. O caso do "AI Steve", no Reio Unido, e do "Leader Lars", na Dinamarca, mostram que a ideia de políticos IA já deixou o campo da ficção. Em 2022, o Partido Sintético dinamarquês defendia algoritmos calibrados com dados populacionais para representar os 20% que se abstêm do voto. Uma pesquisa do Centro de Governança da Mudança (IE University, 2021) mostra que 51% dos europeus apoiariam substituir parte do parlamento por IA. O desejo por uma política sem escândalos, sem vaidades, sem desvios. Uma política incorruptível, sem erros, é real. Mas o que mesmo é humano? Me ajudem a lembrar... Ah sim, errar é humano. Só que e se nós pudéssemos ter uma política sem erros? Pois é, podemos. Mas a pergunta central não é se podemos. É se devemos. É um momento bíblico: 1 Coríntios 6:12. O Erro como Essência da Política Vamos lá, o que é erro na política? Um erro matemático? Um desvio de protocolo? Ou a expressão legítima de conflitos éticos, morais e sociais? Filósofos como Jürgen Habermas nos lembram que a democracia não é apenas uma técnica decisória, mas um campo de ação comunicativa, onde o debate público e o dissenso são fontes de legitimidade. Sem imperfeição, não há negociação. Sem emoção, não há representação. A IA pode ser precisa, mas é cega ao sofrimento, à ironia, à história e ao desejo. Ela não vive. Não teme. Não hesita. E por isso mesmo, talvez não devesse governar, ao menos enquanto não for humana, subjetivamente humana. Além disso, governar por algoritmos traz riscos estruturais em estruturas que já não são lá aquelas coisas. Como "câmaras de eco", algoritmos podem reproduzi os preconceitos dos dados que os alimentam. Se há racismo, ou desigualdade nos dados históricos, haverá na decisão da IA. Isso já foi demonstrado em sistemas de justiça preditiva e policiamento automatizado nos EUA. Claro, por outro lado, podemos afirmar que não há grandes diferenças com o atual sistema orgânico, e a IA, além de tudo, pode ser reprogramada. Será que os preconceitos estruturais também podem? E no Accountability? Quem responde por uma decisão catastrófica tomada por uma IA parlamentar? O partido que a programou? A empresa que a desenvolveu? Os dados que a treinaram? Talvez seja cedo pra dizer, mas nunca cedo pra já pensar, pois além disso, um parlamento automatizado (por exemplo) é sim um alvo de valor extremo para hackers. Basta alterar um parâmetro e o futuro de milhões pode mudar. Com o avanço da computação quântica, a capacidade de descriptografar o antes "indescriptografável", aumenta exponencialmente. Por fim, se a política se torna perfeita demais, perde-se o espaço do engajamento. O cidadão torna-se espectador de um teatro técnico e opaco, a vida humana perde mais uma de suas expressões naturais. Substituir o humano pelo perfeito pode ser, paradoxalmente, o erro maior. A política é um território de erros criativos, improvisos históricos e rupturas simbólicas. A democracia é uma prática, não um produto. A ideia de que algoritmos são neutros é uma falácia tecnopolítica. Algoritmos são ideologia codificada. E como tal, estão sujeitos às mesmas disputas, corrupções e interpretações de qualquer outro instrumento humano. No entanto, em uma especulação desse tipo, é preciso dizer, a ideia é JUSTAMENTE a de manter algoritmos ideológicos, à escolha da população: vota-se em agentes ideológicos autônomos, não em pessoas. E como poderia ser? Aqui entra o papel do design de futuros. Sim, podemos usar a IA para aumentar a democracia, não substituí-la. Ferramentas que ajudam a projetar os efeitos de leis, plataformas que ampliam a escuta popular, sistemas que detectam corrupção em tempo real. Tudo isso JÁ É possível. A IA pode ser assistente, não agente. Pode organizar debates, propor simulações, mapear necessidades sociais, pode equalizar experimentações de propostas e encontrar incongruências. Mas até onde queremos permitir? Até onde devemos? Se o futuro for uma democracia algorítmica, ele precisa ser repensado em profundidade. Não basta trocar políticos por programas. É preciso perguntar: o que é política sem o humano? Por que a gente não tem NENHUM parâmetro para se agarrar, é um voo cego TOTAL. Embora os políticos hoje sejam bem complicados, ainda são "the devil we know". A proposta aqui é provocar porque coloca em risco não apenas um sistema, mas a própria ideia de que o erro, o dissenso e a contradição são constitutivos da experiência política e social. Se quisermos um futuro habitável, talvez devamos aprender a conviver com o erro. Porque talvez seja ela que tenha nos movido até aqui. O defeito que segura a estrutura é a esperança de não errar, não a de ser isento de erro.

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