Augusto Carminati
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O porre tem futuro

Publicado em 20 de junho de 2025

O porre tem futuro
Aprofundar-se no estudo de tendências tornou-se um processo digitalizado e padronizado, e nisso reside seu paradoxo: quanto mais IA analisa dados de relatórios, mais vagas se tornam esses próprios dados e as ações possíveis recorrentes deles. O que era campo de investigação virou consumo de fluxo retroalimentado, um ciclo de desk research sobre desk research. Cada vez mais, a IA analisa relatórios que já se baseiam em interpretações de relatórios anteriores. A cadeia fria apaga a fonte primária, silencia a pesquisa de campo. O resultado: informação que nunca foi informação, tem texto, mas não tem substância, são apenas ensaios retóricos. Relatórios emergentes repetem dogmas, convenções massivas, e reforçam narrativas geradas por eles mesmos. Empresas e organizações em geral se munem e se orgulham desses relatórios como instrumentos de visão estratégica, quando na verdade são commodities narrativas: previsões recicladas com design bonito. Isso alimenta o futures washing, como elucidado pela grande Joice Preira, da ALAF - Associação Latina de Futuros, uma cosmética do pensamento de futuro que dilui a validade da inteligência antecipatória, prejudicando quem trabalha com foresight estratégico de fato, ou até mesmo qualquer abordagem do futures thinking em geral. Muitos desses documentos limitam-se aos chamados "cenários projetados", uma trajetória previsível, linear e repetitiva que ignora o espectro completo: demais cenários possíveis, prováveis, plausíveis e até mesmo os preferíveis. O cone, originalmente concebido como uma ferramenta para expandir o pensamento, é usado como funil. Em vez de alternativas, entregam continuidade. Em vez de exploração, entregam conformação, e elas, hoje em dia, nem ao menos consideram a realidade de fato, mas sim a realidade retórica de relatório sobre relatório. Pesquisas no Journal of International Business Studies mostram que apenas 4,1% dos estudos empregam dados primários; a imensa maioria recorre a fontes secundárias. Já a metaciência alerta: ausência de replicação e triangulação empírica acende sinais de crise de confiabilidade. O campo morre sem campo. Em Antropousia (https://a.co/d/fNFMPyq) propus que a humanidade é um sistema caótico de nível 2: ou seja, todo estudo do campo humano exige tamanha quantidade de variáveis que torna-se caótico, com a particularidade de que previsões interferem no comportamento e podem alterar o previsto. Saber que "você fará algo" pode mudar o algo que você fará. A prescrição automatizada esbarra na plasticidade humana. E é aí que reside o maior risco: quando deixamos de observar o mundo para apenas reciclar narrativas sobre ele, não apenas perdemos a capacidade de previsão — perdemos a capacidade de presença, a contracultura do foresight. Assim, a credibilidade se esvai e a "estratégia" compromete o ecossistema todo. Planejar a partir de dados contaminados pela repetição é como navegar com mapas que apenas simulam o território e vão se sobrepondo a mapas simulados que intensificam pontos cegos tanto pela ausência quanto pelo exagero. Transformar tendências em commodity digital é enterrar a experiência humana num algoritmo hermético. Vivemos num retroalimentador retórico que substitui presença por premissa. O desafio é reacender a fonte — recuperar o campo, a voz, o humano. Design estratégico e foresight com presença não traçam tendência; traçam caminho. A disfunção, portanto, não está no uso da inteligência artificial, que é excelente para esse tipo de estudo e, sobretudo, compilação de dados, mas sim na substituição do real pelo representado, da escuta pela automação 100% inumana. Quando toda forma de prospecção se transforma em antecipação padronizada, o que resta não é um vislumbre do futuro, mas uma caricatura do presente projetada para parecer futurista, e uma caricatura da caricatura, tende a exagerar pontos que nem deveriam existir, a princípio. A inteligência não está em prever - o que de fato não existe, mas em sustentar a dúvida do possível, provável e plausível de forma produtiva. Tendência que não escuta o campo é ruído que se fantasia de visão. Esse cenário de saturação técnica e epistemológica exige um retorno ao chão — à pele da pesquisa, ao olhar do etnógrafo, ao desconforto da ambiguidade. A antecipação mais relevante hoje não é a que tenta capturar o que virá, mas a que tem coragem de ficar no intervalo entre o que é e o que ainda não foi nomeado. Isso implica renunciar à segurança dos templates, à ilusão das certezas infográficas em dashboards, e mergulhar no campo com a disposição de ser transformado por ele. Nenhum futuro digno desse nome se constrói apenas com curvas de tendência, e muito menos quando a tendência vira commodity. É preciso curva de sensibilidade, de presença e claro, de ruptura. Porque o mundo não muda por projeção. E também nem continua por projeção. O mundo muda por fricção. E quem não estiver disposto a friccionar o presente estará fadado a replicá-lo sob novas embalagens, ou surpreender-se negativamente com ele sempre, ao tentar chamá-lo de amanhã.

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