Quando os boletos ensinam as máquinas
Publicado em 22 de outubro de 2025

Grupos. Ruim com eles, pior com eles, mas quem consegue passar ileso? "Nenhum homem é uma ilha", não é mesmo? Você aí, leitor, já deve ter entrado em algum grupo que, de repente, passou a fazer parte da sua vida mais do que você gostaria de admitir.
Pode ter sido um fã clube do Nx0, uma guilda de World of Warcraft, um grupo de corrida no WhatsApp ou aquele fórum obscuro em que meia dúzia de estranhos discutia política com mais intensidade que um congresso, e com muito mais absurdos também. A sequência quase sempre segue a seguinte lógica: no começo é sobre o tema. Depois é sobre as pessoas. E, antes que você perceba, é sobre você!
Agora imagine que esse grupo é mundial. Que tem linguagem própria, rituais, símbolos, tradições, hierarquia e até um tipo de fé compartilhada. É o que acontece com os fandoms de K-pop (essas comunidades digitais formadas por milhões de pessoas que não apenas ouvem música, mas constroem uma cultura inteira em torno dela). Aprendem coreano, organizam mutirões, arrecadam fundos para causas sociais, fazem parte de algo que parece muito maior do que elas mesmas. Bigger than life. A pergunta é inevitável: isso faz bem para a cabeça ou tá todo mundo meio lelé da cuca?
Foi o que investigaram Arizabal, Yabut e colaboradores (2025), pesquisadores da De La Salle University nas Filipinas, no artigo "The Mediating Effect of Social Connectedness in the Relationship Between K-Pop Fandom Identity and Mental Health", publicado na SAGE Open. O estudo partiu de uma hipótese curiosa e ousada: pertencer a um fandom não é só entretenimento, é uma forma de saúde mental coletiva.
A primeira coisa boa é que você não precisa sair lendo os mais recentes papers científicos por aí, pois eu trago mastigadinho pra você, a segunda é que os autores desse entrevistaram mais de quatrocentos fãs filipinos de grupos como BTS (ARMY), BLACKPINK (Blinks) e SEVENTEEN (Carats). Usaram escalas bem conhecidas da psicologia social: a Social Identity Scale (Cameron, 2004), que mede o grau de identificação do indivíduo com um grupo, e a Fandom Social Connectedness Scale (Chadborn, 2019), que mede a sensação de conexão com outros fãs. Também avaliaram dois indicadores de saúde mental: bem-estar subjetivo e sintomas de depressão.
A lógica era simples: se o fandom faz bem, então COMOM ele faz? Direta ou indiretamente? Em outras palavras, a melhora vem do fato de a pessoa se sentir parte de algo, ou do contato humano que isso proporciona?
O resultado foi interessante, e mais humano do que otimista. A identidade de fã, isto é, a sensação de pertencer a uma comunidade K-pop, estava associada a níveis mais altos de bem-estar e a níveis mais baixos de depressão. Mas o caminho não era o mesmo. No caso do bem-estar, a ligação era mediada pela conexão social: quem se sentia mais conectado a outros fãs também se sentia mais feliz. Já no caso da depressão, a relação era direta, ou seja, o simples fato de se sentir parte de algo reduzia os sintomas depressivos, mesmo que o contato social não fosse intenso.
Traduzindo: a companhia ajuda, mas o pertencimento cura.
E aqui está o ponto filosófico. A Social Identity Theory (Tajfel & Turner, 1979) explica que grupos oferecem quatro recursos psicológicos básicos: pertencimento, autoestima, significado e controle. São os quatro pilares invisíveis do equilíbrio mental. O estudo filipino confirma que esses pilares continuam valendo, mesmo quando o grupo é digital, global e aparentemente impessoal. Não é preciso conhecer pessoalmente ninguém para sentir-se menos sozinho, basta acreditar que se pertence a um todo com vários alguéns conectados a ele, assim como você.
Já está conseguindo ligar essa lógica à onda de extremismos políticos que ressurge em uma época de total despertencimento social, né?
Mas há um detalhe incômodo nos números. Embora a conexão social tenha melhorado o bem-estar, ela não mediou a redução da depressão. Isso significa que, para muitos fãs, o sentimento de grupo não veio de relações reais, mas das simbólicas. Em outras palavras: o fandom pode ser um abrigo emocional, mas não necessariamente um laço social! E um abrigo pode até ser uma casa, mas nunca chega a ser um lar.
Em um mundo em que as pessoas vivem cercadas por conexões, mas ainda assim se sentem sozinhas, esse resultado soa como um aviso. Pertencer ajuda, mas não substitui o toque humano. O conforto de um avatar e símbolos tem limite.
Em Antropousia eu citei o quanto as manifestações humanas existem em três camadas: objetivas, subjetivas e intersubjetivas. Os símbolos são intersubjetivos, duram muito e são poderosíssimos, mas não existem e nem resistem à ausência total da objetividade, ou seja, precisamos sim do toque.
O mais fascinante é que esses efeitos aparecem de forma mensurável. As análises de regressão mostraram que quanto mais forte a identidade de fã, maior o bem-estar e menores os sintomas depressivos. O modelo estatístico apresentou bons índices de ajuste (CFI = 0,94; RMSEA = 0,05), o que indica que a estrutura proposta pelos autores realmente reflete a relação entre as variáveis. Mas os efeitos foram modestos: não estamos falando de um antídoto universal, e sim de pequenas doses de pertencimento que aliviam o caos psicológico da vida moderna.
Mas há também o lado sombra. A mesma lógica que oferece pertencimento pode aprisionar. A identidade coletiva, quando muito forte, sufoca a individual. O grupo passa a definir o que sentir, o que pensar, o que odiar. É o eterno paradoxo do pertencimento: a conexão que cura é a mesma que pode corroer. Nenhum homem é uma ilha, mas o inferno são os outros.
Os autores reconhecem essa ambiguidade ao observar que os efeitos positivos foram pequenos, e que o mesmo mecanismo que melhora o bem-estar pode gerar ansiedade quando há conflito dentro do grupo. Ser "Army" consola até o momento em que o grupo se divide.
O estudo, apesar de restrito a um país, e de não trazer nada de tão novo (afinal, muitos estilos musicais, como o heavy metal, já fizeram o mesmo antes), mas a dieferença é que agora tempos números mais concretos e ele levanta novamente uma questão universal: por que buscamos pertencer tanto? Talvez porque a solidão tenha deixado de ser ausência de pessoas e se tornado ausência de propósito compartilhado, temos pessoas (muitas pessoas), mas não ha nada que triangule a nossa conexão. O fandom, nesse sentido, é um simulacro de comunidade, uma versão comprimida de algo que já existiu antes da internet e que ela apenas acelerou. A religião, o bairro, o clube, o sindicato, todos cumpriam essa função de dar nome e rosto ao pertencimento. O K-pop apenas digitalizou o rito em mais um semi-novo formato.
A lição, claro, é menos sobre K-pop e mais sobre nós. Quando as fronteiras da identidade se dissolvem, buscamos novas formas de nos reconhecer. A internet prometeu nos conectar com o mundo. E conseguiu. Mas a verdade é que ainda não foi tão útil para nos conectar com nós mesmos.



