Não, a IA não é uma bolha
Publicado em 11 de agosto de 2025

Às vezes um país não afunda, ele muda. É como um imenso navio de Teseu, mas é também o seu próprio oceano.
Ninguém percebe o instante exato em que um país deixa de existir. O que se percebe é quando o nome passa a designar um lugar da memória, não da geografia, o que geralmente começa com a fetichização do passado e não mais o anseio pelo futuro.
Dos diversos sinais de fim que um império pode dar, o saudosismo da ficção é o maior e mais óbvio deles. "Make [coloque aqui o país] great again" é o slogan que comprova que, através do absoluto desejo pelo passado, mais ninguém alí tem verdadeira crença no futuro.
Não digo por teimosia atual pois falei bastante sobre isso em Antropousia (https://abre.ai/njh5).
Conteúdo do artigo
(notem a mordida que o Zequinha deu no meu kindle)
Que os EUA vão acabar é um fato. Tudo vai. A questão agora é que há sinais fortes que mostram que foi dada a largada para esse fim.
Para nós, brasileiros, indiscutivelmente dentro da zona de influência mais profunda desse império, é difícil imaginar, mas vem comigo. Como será esse mundo?
Em 2051, os “Estados Unidos da América” já eram isso: uma moldura vazia pendurada num museu a céu aberto. O curioso é que não houve trombetas. Houve, isso sim, uma série impecavelmente razoável de pequenas decisões, cada qual defensável no curto prazo, que juntas retiraram a possibilidade do longo.
Duas décadas antes, o “nós” já se esgarçava. O centro político mirrava, as margens cresciam, e a lógica afetiva do antagonismo transformava a derrota eleitoral em humilhação existencial. Sete estados recusaram-se a certificar o resultado federal de 2028, mas ninguém inventou a crise, apenas oficializaram a falta de acordo sobre o que conta como acordo, pois o que já havia morrido era a capacidade de acordar.
Todo sistema depende de perdedores conformados para se alinhar e quando qualquer perda é inaceitável, quem morre é o sistema, e isso não se conserta com uma emenda; só com cultura, mas ela já se desmanchara sob a epidemia silenciosa de isolamento, desconfiança e hipocrisia. Igualdade perante a urna exige algum tipo de vizinhança simbólica; quando essa vizinhança evapora, a urna vira só um ritual patético.
Em 2031, o Tesouro perdeu o degrau. Um default que por si só não derrubaria um império, não fosse o contexto: anos de sanções extraterritoriais e sobretaxações, congelamento de reservas alheias e discursos sobre “privilégio exorbitante” haviam incentivado o mundo a construir alternativas e redundâncias ao dólar.
Embora todos jurassem eterna lealdade durante o dia, amotinavam-se à noite para garantir um dia acordar sem precisar bajular o obeso, confortável e exigentíssimo império.
Não apareceu um novo César monetário; apareceu uma arquitetura paralela de compensações locais, redes de pagamento alternativas, comércio em moedas próprias. O dólar continuou grande, mas perdeu o monopólio. Para dentro, o choque foi mais agudo: custo de financiamento explodiu, fuga de capitais, desvalorização. Governadores descobriram que a “União” agora depreciava os seus. E, num país onde as regiões sempre foram economias com dialetos, o passo seguinte foi natural: surgiram moedas regionais não como capricho, mas como terapia intensiva. O Nordeste costurou uma União do Atlântico, uma espécie de federação bancária conectada a compensações europeias; o Pacífico acoplou-se aos relógios da Ásia; o Sul fez do petróleo, da fé e do aço sua correia de transmissão fiscal. Cada qual, a sua âncora. A ideia de um dinheiro comum tornou-se uma recordação romântica da gasolina barata.
A segurança fechou o cerco em 2033. Documentos reforçados passaram a ser exigidos para viagens interestaduais. Todo mundo desconfiava de todo mundo. Não era xenofobia entre compatriotas, mas um "gerenciamento de risco", entende? Fluxos migratórios internos sem lastro de serviço público, transporte de armas e opioides por corredores interestaduais, epidemias sazonais, e uma lista infindável de razões “técnicas”. Os estados, que sempre foram laboratórios, viraram fortalezas administrativas. Ninguém proibiu ninguém de cruzar a fronteira; só ficou mais custoso e mais auditado.
A liberdade não desapareceu, redefiniu-se como “gestão eficiente”.
Em 2035, a água cobrou seu décimo. O Sudoeste rompeu acordos federais de partilha hídrica, argumentando o óbvio: sem água, não há IA, ou lei que valha. A política dos rios substituiu a política dos estados; compacts foram rasgados, desertos avançaram, agricultores mudaram de latitude. Onde faltou coordenação central, sobrou pragmatismo local. Algumas regiões investiram em dessalinização, recharge de aquíferos e agricultura de precisão; outras militarizaram comportas. A guerra, aqui, nunca foi declarada mas administrou-se muito bem.
No mesmo compasso, o mundo mudou de motor. A transição energética não “acabou com o petróleo”, mas rebaixou seu cetro: eólica e solar baratearam, armazenamento amadureceu, hidrogênio deixou de ser slide, e a bioenergia tropical ganhou gramática fiscal. A China consolidou-se como refinaria de elementos críticos e como marinha com intenções oceânicas; e isso importa menos como ameaça e mais como infraestrutura: quem detém gallium, terras raras e cadeias inteligentes reorganiza quem tem direito a projetar poder.
Longe dali, nós aqui, o Brasil descobriu que sua tríade (alimento, bioenergia e água doce) valia mais que discursos. No tabuleiro multipolar, o que era periferia virou ativo: quem alimenta, irriga e energiza não precisa pedir para sentar, põe a mesa.
Mas vem comigo, vamos seguindo nessa viagem especulativa... Em 2040, a fenda cultural encontrou um símbolo. A chamada Batalha dos Arquivos Nacionais não teve tiros; teve juízes, advogados, curadores e cavalos de pau hermenêuticos. Quem guarda a Constituição guarda o quê, exatamente, quando a Federação já não se reconhece no espelho? O arranjo final foi de museólogo: os documentos fundadores passaram a rodar entre as novas capitais como relíquias itinerantes, sob protocolos de segurança que, de tão meticulosos, pareciam liturgia. Washington, D.C. foi rebaixada a distrito museológico neutro. A história ficou no lugar certo: morta e exposta.
Dois anos depois, os mapas escolares foram redesenhados. E este foi, possivelmente, o ponto de não retorno, não para os adultos, que ainda discutiam se a página 37 estava “correta”, mas para crianças que aprenderam que “América” é palavra de atlas, não de passaporte. Em 2045, reuniões de família começaram a exigir documentação internacional. Em 2049, o adjetivo “americano” trocou de função: deixou de identificar um presente e passou a qualificar um passado. A gramática sempre confessa antes do poder.
Eu sei, ao contar assim, parece abrupto. Não foi. O que acontece é, assim como a queda de toda estrutura social que já existiu, as medidas tomadas para tentar reverter falhas acabam por falhar em dobro. As abordagens operadas para tentar recuperar terreno perdido, perdem o dobro de terreno.
O desespero esfarela o terreno moral sobre o qual, antes de qualquer outra coisa, um império se constrói.
E assim vamos.. Um pé é desastre o outro é normalização.
Cada passo teve um relatório que o justificou, um parecer que o assinou, um telejornal que o normalizou. “Gradual, depois súbito” é uma etiqueta elegante para o banal: passamos anos nos acostumando; no fim, chamamos de inevitável. Roma foi assim. Moscou foi assim. Washington, no século XXI, foi assim, não por capitulação militar, mas por subtração contínua de consensos. Esse sim, é o fim de um império.
A polarização corroeu o mecanismo de perder e aceitar; a atomização social dissolveu o cimento que sustenta confiança; a economia retirou a almofada do dólar; a geopolítica distribuiu o centro de gravidade; e a moral externa, gasta por guerras e alinhamentos mal explicados, perdeu a capacidade de pedir deferência. Nada disso, isolado, “acaba” um país; mas somados, impedem que ele recomponha a si mesmo.
O fim, portanto, não tem data, tem acumulação, até que a palavra americano adquirisse o tom sépia de fotografias que precisam de legenda. Em suma: foi tudo razoável e por isso foi irreversível.
O mais impressionante no "fim da América" foi o quão normal ele se parecia enquanto acontecia. O erro, afinal, foi a fé. A fé de supor que a soma de decisões insensatas continuaria, por milagre, produzindo um país.
Não produziu.



