Augusto Carminati
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E se o governo fosse uma IA?

Publicado em 26 de junho de 2025

E se o governo fosse uma IA?
A história nunca se repete, mas sempre se refere. Talvez não dessa vez: não há sociedade conhecida na história que não tenha como modo tradicional de existência, algum tipo de porre; algum álcool na maior parte delas. No entanto, entestamos testemunhando uma mudança paradigmática e inédita no consumo de álcool entre jovens atuais da sociedade, sobretudo ocidental. Dados do The Guardian, Business Insider e relatórios globais apontam uma queda dramática: entre 44% e 63% da geração Z, em países como Brasil, Estados Unidos e Japão, não consumiram álcool nos últimos seis meses. Nos Estados Unidos, 21% dessa geração jamais bebeu álcool, e 39% bebe ocasionalmente. Fiz uma projeção e ao ritmo médio anual de -3,5% no consumo regular, o álcool tende a desaparecer como rito social até 2031 se considerarmos, claro, somente a projeção matemática. que tende sempre a cair por terra nas realidade socioculturais. Mas já que a projeção permite, vamos especular: se o álcool evapora, o porre também evaporará? O vazio cultural da embriaguez exige substitutos. O que exatamente é o porre senão uma experiência de transcender limites, quebrar inibições e criar conexões sociais inesperadas? Sem álcool, novas formas de transgressão ganham terreno — e é isso que nos interessa investigar aqui. Os primeiros sinais já estão aí. Em São Paulo, as coffee parties substituem bares por cafeterias onde DJs como Ashba animam eventos durante o dia. Sem ressaca, sem quebrar rotinas, pessoas convivem tranquilamente com amigos, cachorros e crianças. É uma sociabilidade leve, estratégica e otimista, que desmancha a imagem tradicional do porre noturno. Outro fenômeno, as corridas urbanas coletivas, cresce rapidamente como alternativa aos aplicativos de paquera. Dos Estados Unidos à Europa, jovens buscam encontros em clubes de corrida, unindo atividade física e flerte em eventos que privilegiam a performance do corpo e não a performance digital. É um porre saudável, hormonal e cinético. É importante destacar que essas mudanças acontecem majoritariamente entre jovens de classe média e alta, para quem abandonar o álcool tradicional já é um luxo. Nas periferias e comunidades mais pobres, as grandes marcas de cerveja e bebidas alcoólicas ainda dominam. festas patrocinadas, bailões e rolês noturnos permanecem como refúgio essencial, sanidade possível em um cotidiano pouco acolhedor. No entanto, a história já mostrou: o luxo de hoje é o básico de amanhã. Observar essa tendência não é apenas uma análise elitista, é antecipar um futuro próximo. E há uma questão cultural ainda mais profunda aqui: se a noite sempre foi o grande laboratório cultural do improviso, da transgressão, da moda punk, clubber, gótica, da experimentação visual e comportamental, será que agora perdemos a noite para o dia? Trocamos o underground por paletas pré-programadas, matcha, looks Pinterest e uma disciplina excessiva de autocuidado? Não se trata de nostalgia, mas de questionar o que molda as gerações futuras. Afinal, se a noite era laboratório, o que exatamente estamos criando agora? A noite sempre foi a mãe da contracultura, nascida de uma relação incestuoso com o porre. Em tempos de IA como câmaras de eco, talvez devamos observar esse como mais um fator que corrobora com os tempos uniformes que virão. Sim, esses são sinais importantes, mas também não suficientes. A verdadeira mudança, sugiro aqui, será radicalmente biotecnológica. Até 2035, lugares como "SpaLabs" substituirão até os cafés que hoje substituem bares tradicionais, criando ambientes híbridos entre laboratórios médicos e pistas de dança. Neles, cápsulas sensoriais, bioquímica customizável, DJs-neuroengenheiros e frequências neuronais assumirão a tarefa social antes desempenhada por cervejas e shots de tequila. Um luxo. Essa nova sociabilidade implica também novos tipos de drogas. A atual "cocaína rosa", mistura popularizada de MDMA, quetamina e estimulantes, é apenas um protótipo de começo. Futuramente teremos drogas biotecnológicas probióticas, nanorrobôs neuronais, cápsulas sublinguais que ajustam humor e libido em tempo real — prazer que cura, cura que conecta. O corpo se tornará playground bioquímico e social. Mas protocolarmente programado e controlado, nada de porre. Claro, essa nova realidade não será democrática. Se hoje o luxo é ter bolsas caras ou carros exclusivos, amanhã será ter acesso a modulação genética personalizada. Um luxo molecular, elitista e caro. A desigualdade se tornará mais violenta porque biológica: alguns terão o privilégio de editar humores e metabolismos sob demanda, enquanto outros ficarão presos a uma sobriedade forçada, símbolo de exclusão social. Não se trata apenas de exclusividade. Existe um profundo dilema ético e cultural envolvido. Se a biotecnologia pode libertar-nos das ressacas e do alcoolismo, ela também pode nos aprisionar em ciclos intermináveis de ajuste neuroquímico controlado, como os rudimentares remédios atuais já claramente demonstram. Quem decidirá o limite entre natural e artificial? Que tipo de identidade coletiva surgirá quando cada interação puder ser roteirizada bioquimicamente? A GeraçãoZ, diferente da anterior, a Millennial, já mostrou que não se governa por culpa, mas por vergonha. Ciente de como seus predecessores foram "cringes" e de como a internet não esquece NADA, toma total cuidado para não errar, não por vontade do acerto, mas por vergonha do que quer que seja que considerar falha. Dessa forma, o porre descontrolado do álcool não é mais bem visto, pode ser (dentro muitíssimos outros problemas), vexaminoso. E aqui chegamos ao ponto central desta reflexão: o futuro porre será biotecnológico, emocionalmente modulado e metabolicamente luxuoso. O risco real não será a embriaguez física, mas a embriaguez existencial: uma intoxicação pela própria capacidade técnica humana. O corpo poderá tornar-se uma gaiola dourada — agradável, viciante, perfeita — mas ainda uma gaiola muito bem estruturada para ser melhor, não para ser livre, ainda que de vez em quando. O hedonismo - ainda que temporário, travestido da permissividade do "hoje eu mereço, vai" - perdeu. Ele deu lugar a Marcus Aurelius como autor de cabeceira. Em resumo, o futuro do porre não está no álcool, mas na química organizada e personalizada e na sociabilidade biohacker. Em 2031, o álcool será quase uma memória histórica; em 2037, as festas serão bioquímicas; e em 2045, a embriaguez será ritualizada como uma forma de regeneração emocional e social sob demanda. Isso não é uma profecia. É uma provocação necessária para antecipar, criticar e ajustar os rumos dessa nova realidade que, sem dúvida, já começou a emergir. E talvez não seja tão brilhante quanto pode seduzir hoje. Se precisamos de contracultura, nada melhor do que expor a cultura para qual podemos caminhar caso não façamos nada, não é mesmo?

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