A matriz do medo: descubra se a máquina vai te substituir
Publicado em 28 de julho de 2025

Fenômeno digital inconteste do momento, o tal "Morango do Amor" não é apenas uma sobremesa, é a mais recente encarnação de um ciclo nostálgico de mercado. Ele não é a nova versão da maçã do amor, como alguns sugerem pois ele é, antes, a reedição emocional da paleta mexicana, da pipoca gourmet, etc. é o atual avatar de uma longa linhagem de reencarnações consumais.
Assim como o brinquedo La Bubu ecoa o Furby, e o best-seller Bob Goods remete diretamente à febre editorial do Jardim Secreto, aquilo que consumimos em tempos de crise não é exatamente novo, mas profundamente familiar.
Na psicologia do consumo, isso tem nome: consumo regressivo. Trata-se de um movimento coletivo e inconsciente que se intensifica em cenários de escassez ou ameaça, sejam eles crises econômicas, colapsos políticos, guerras ou pandemias. Nesses contextos, o desejo não é mobilizado pela novidade, mas pela segurança simbólica: o que buscamos não é apenas pertencimento, é retorno.
Quer ver como funciona? Durante a crise do subprime em 2008, as vendas de brinquedos como Playmobil e Lego dispararam, assim como as confort foods como cupcakes, brigadeiros (que passaram pela gourmetização, claro) e outras indulgências que evocam a infância como território de proteção. Se você viveu entre 2013 e 2015 no Brasil, deve lembrar da ressurgência das paletas mexicanas, do Jardim Secreto, do retorno do Furby e dos brinquedos do Batman, tudo isso em plena crise hídrica, instabilidade política e retração econômica.
Bom, durante a pandemia, vimos o mesmo padrão: quebra-cabeças, Lego, jogos de tabuleiro, Tamagotchi, Pokémon. Até o TikTok, em sua fúria por relevância, se rendeu à nostalgia auditiva, revivendo músicas dos anos 80, 90 e 2000 como trilha sonora de uma juventude ansiosa por ancoragem emocional.
O ciclo se repete: quando o medo do futuro falha em oferecer promessa, voltamos o corpo ao passado. Troca-se a bolsa de luxo pelo doce infantil, o carro do ano por um livro de colorir, o desejo de ascensão por um desejo de abrigo. E isso não é fuga, é linguagem. Embora a fetichização do passado quase sempre seja ancorada em passados tão fictícios quanto os futuros (como quando dizemos "faça alguma coisa grande again", mesmo que esse grande do qual falamos nunca tenha sido real e nem saibamos exatamente de qual tempo-espaço estamos falando), o boné, o brinquedo, o doce, o cheiro, o som: tudo isso é um código que diz, com delicadeza, aquilo que nossa racionalidade não sabe formular: queremos segurança.
Um instante de leveza. Um interstício de tempo onde seja possível, novamente, imaginar. Onde seja possível, mesmo que por um momento, voltar a ter esperança. O Morango do Amor é só o começo: é o sintoma mais doce da nossa vulnerabilidade mais real.
A busca por segurança emocional por meio do consumo não é algo novo, e também é demasiado humano. No entanto, a intensidade, a abrangência e o caráter profundamente emocional que surge em momentos contemporâneos de crise exigem uma análise mais cuidadosa e detalhada, pois estamos em um momento onde a crise não é mais só econômica, social e moral. Ela é também existencial.
É exatamente nesse contexto que nasce eu ando chamando de "Safeboom": uma reação emocional coletiva que leva as pessoas a consumirem produtos e experiências que remetem a memórias afetivas e sensações de segurança, aquilo que em tempos aéreos, tende a nos dar chão.
O Safeboom, então, como vim notando em minhas pesquisas, se manifesta como um padrão comportamental que se repete ao longo da história humana, não restrito apenas às crises recentes, embora muito mais acentuado nela. Já durante a Grande Depressão, entre 1929 e 1930, alimentos como sopas cremosas e doces ganharam destaque nas mesas americanas, proporcionando conforto emocional em tempos difíceis. Não foi coincidência o surgimento do famoso sorvete Rocky Road, criado deliberadamente após o crash da bolsa para "dar às pessoas algo para sorrir durante tempos difíceis", como dizia Willian Dreyer, seu criador.
Aliás, se enquanto uns choram, outros vendem os lenços, é importante dizer que doces funcionam (e vendem) melhor que lenços. Brinquedos também.
Duvida? Vamos aos dados: com a pandemia de COVID-19, o padrão do Safeboom tornou-se ainda mais evidente e globalizado. Dados do IRI Report indicaram aumentos expressivos nas vendas de pizzas congeladas (+92,7%), sorvetes (+38,2%), chocolates (+21,1%) e doces (+14,4%). O fenômeno também foi evidente na valorização de brinquedos e jogos nostálgicos, como quebra-cabeças e jogos de tabuleiro, especialmente nos períodos de isolamento social mais intenso.
Do ponto de vista neurológico, há uma sólida explicação científica para esse comportamento. Shahram Heshmat, em artigo na Psychology Today, destaca que em situações de estresse coletivo, o cérebro humano ativa intensamente o sistema de recompensa através de produtos que remetem à infância ou a momentos emocionalmente mais seguros. Essa ativação não é aleatória, mas uma resposta biológica estruturada para aliviar o estresse emocional e social.
O sociólogo Zygmunt Bauman reforça esse entendimento ao situar o consumo emocional dentro do contexto da modernidade líquida, na qual a identidade é fluida e instável. Nesse cenário, o Safeboom atua como uma âncora emocional e psicológica, proporcionando uma sensação ilusória, mas essencial, de estabilidade e continuidade.
A nostalgia desempenha um papel crucial no fenômeno do Safeboom.
Fred Davis categoriza a nostalgia em três tipos distintos: relutante, progressiva e lúdica. É especialmente a nostalgia lúdica que ganha relevância neste contexto, refletida no retorno de produtos populares das décadas de 1980 e 1990. Vídeos no TikTok usando músicas antigas exemplificam claramente como essa forma de nostalgia é amplamente consumida, reforçando a conexão emocional com o passado seguro.
Paul S. Strand também destaca o impulso por segurança como algo profundamente arraigado no comportamento humano, sugerindo que a busca por produtos regressivos é impulsionada por necessidades evolutivas e universais, particularmente evidentes em contextos de insegurança coletiva.
Contudo, é fundamental ressaltar que o Safeboom não é uniforme entre as classes sociais. Nas classes média e alta, o consumo nostálgico muitas vezes assume formas sofisticadas e caras, como brinquedos premium e alimentos gourmet. Já nas classes mais baixas, embora o desejo emocional seja semelhante, as opções disponíveis geralmente são limitadas a produtos mais acessíveis patrocinados por grandes marcas.
Além disso, no meu entendimento, o Safeboom está sustentado por cinco fatores essenciais:
Ativação do sistema cerebral de recompensa
Automedicação emocional
Necessidade de pertencimento social
Ativação de memórias olfativas nostálgicas
Criação de rituais especiais de consumo.
Esses fatores interagem constantemente, reforçando-se mutuamente e consolidando o comportamento regressivo em tempos difíceis.
Agora, é importante frisar que os cinco fatores devem estar ligados ao gatilho histórico-social que os une e desencadeia coletivamente, assim como o "baby-boom" que ocorre sempre após grandes crises (explosão de nascimento pós grandes tragédias humanas, como após o final da Segunda Guerra), e por isso o termo "boom", mas no caso do Safeboom, a explosão é de consumo, não de nascimento.
Além disso, uma expressão empírica relevante desse fenômeno é o "Pepperoni Price Index", desenvolvido pelo Business Insider, que correlaciona diretamente o aumento do consumo de pizzas congeladas com crises econômicas iminentes ou instaladas. Isso evidencia que o Safeboom não é apenas emocional, mas possui claras implicações econômicas e mercadológicas.
Existe ainda uma dimensão temporal fascinante associada ao Safeboom: as gerações tendem a sentir nostalgia por períodos aproximadamente vinte anos anteriores ao presente (assim como eu disse em Antropousia, meu livro - https://a.co/d/66MHttM), confirmando que o Safeboom opera em ciclos previsíveis que podem ser monitorados, especulados e, quem sabe, antecipados.
Como costumo dizer, nada se repete, tudo se refere.
Culturalmente, o Safeboom pode indicar uma mudança significativa na percepção de valor dos produtos. Em períodos de crise, o valor emocional frequentemente supera o valor utilitário, demandando atenção especial das marcas e empresas para ajustarem suas estratégias de comunicação e posicionamento para atenderem a esse tipo específico de demanda emocional e simbólica.
Para profissionais de marketing, isso representa uma mudança na compreensão do comportamento do consumidor. Marcas que compreendem profundamente o Safeboom não estão apenas vendendo produtos durante crises, mas oferecendo segurança emocional e continuidade de identidade e pertencimento. Porém, há responsabilidades éticas importantes nesse contexto, com empresas precisando usar esses insights para promover o bem-estar, sem manipular vulnerabilidades emocionais que, em geral, só funcionaram de maneira bem orgânica até hoje.
Para formuladores de políticas públicas, compreender o Safeboom pode servir como um indicador valioso para monitorar o bem-estar coletivo. Quando as vendas de itens como ingredientes para panificação doméstica aumentam significativamente, isso pode sinalizar um "grito de socorro emocional" da sociedade, oferecendo um termômetro social útil para direcionar políticas públicas mais eficazes...
...Ou terrivelmente mais desastrosas.
No fundo, para bem ou para mal, o Safeboom é a explosão de consumo nostálgico que responde a grandes gatilhos coletivos de crises amplas e generalizadas.
É uma forma de resistência emocional coletiva em tempos dessas crises, uma tentativa consciente e inconsciente de afirmar nossa humanidade compartilhada ou nosso ódio coletivo. Compreender esse fenômeno (e você dê a ele o nome que quiser) não é apenas uma curiosidade acadêmica, mas uma ferramenta fundamental para desenvolver sociedades mais compassivas e resilientes.
O Safeboom continuará existindo enquanto formos humanos diante das incertezas e totalmente não fluentes em futuros, ou seja, apenas capacitados a passados.
Portanto, a questão principal não é se ele ocorrerá, mas como podemos canalizá-lo conscientemente para criar sociedades que ofereçam segurança real, não apenas uma sensação passageira de conforto embrulhada em embalagem atraente e overpriced.
